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11/09/2009

Delfim Netto: crise foi menor do que parecia, e Brasil terá tranquilidade



A notícia de que a economia brasileira cresceu 1,9% no segundo trimestre, divulgada nesta sexta-feira, mostra que o Brasil vive uma retomada e que a crise, da forma como chegou ao país, "foi menor do que parecia originalmente", segundo análise do economista Antonio Delfim Netto. Para ele, teremos "uma certa tranquilidade".

Ele disse que não vê a possibilidade de a crise voltar na mesma intensidade vista no ano passado e criticou os que preveem catástrofes: "Está na hora de os que acertaram, e acertaram por acaso, errarem com certeza."

Leia entrevista que Delfim Netto, professor emérito de economia da USP (Universidade de São Paulo), concedeu ao UOL após a divulgação dos números do PIB.

UOL - Houve um crescimento de 1,9% no PIB do segundo trimestre, sendo um crescimento mais forte da indústria do que dos serviços e argopecuária...

Antonio Delfim Netto - É um crescimento um pouco mais robusto (da indústria) e na direção, digamos, correta, que é o crescimento da indústria.

UOL - O que esses dados significam para o senhor?

Delfim Netto - Esse dados têm um significado, não só no Brasil como em todo lugar, de que a economia está se recuperando.

Ninguém sabe quais são os efeitos finais, digamos, do comportamento dos bancos centrais, das tais políticas anticíclicas, mas uma coisa é certa: elas, combinadas com uma certa flexibilidade da economia, estão pondo para funcionar outra vez o sistema. A resposta brasileira, honestamente, foi uma resposta até otimista.

UOL - Já dá para a gente dizer que a crise passou, ou ainda não?

Delfim Netto - A crise, no caso brasileiro, foi importada. O sistema bancário brasileiro é rígido. As finanças públicas brasileiras, a despeito de um certo terrorismo que os analistas financeiros fazem, é bastante sólida. Então, você tem as condições para reconstrução do nível de atividade.

Seguramente, ninguém pode dizer: "A crise passou". Mas ela foi menor do que parecia originalmente e dá sinais de melhora bastante efetiva. Desse ponto de vista, o Brasil vai ter uma certa tranquilidade.

UOL - No fim das contas, a forma como a crise atingiu o Brasil ficou mais para marola ou tsunami?

Delfim Netto - Isso depende muito do susto. A crise chegou ao Brasil dia 16 de setembro, que foi quando houve a intervenção no (banco americano) Lehman Brothers. O sistema bancário brasileiro é muito mais rígido do que o americano. E o que é mais importante: você tinha um Banco Central (no Brasil) com músculos, para dar uma sustentação maior ao sistema bancário nacional. Isso não foi feito.

O Banco Central, na verdade, agiu sempre na direção certa, mas sempre com atraso, sempre com dubiedade, sempre em dimensões muito pequenas, homeopáticas... e o Brasil foi saindo da crise.

O Brasil está respondendo, na verdade, à flexibilidade da sua economia, à diligência dos seus trabalhadores, que enfrentaram essa dificuldade, e o comportamento dos empresários que souberam negociar com esses trabalhadores a manutenção do emprego e, portanto, a conservação da demanda interna.

A demanda interna no Brasil se conservou exclusivamente porque o sistema econômico provou que é razoável. Ao contrário do que se imaginava - 'é um sistema arcaico de política trabalhista, é um sistema extremamente prejudicial' - mostrou que não. E mostrou, acima de tudo, não adianta ficar triste, a liderança do presidente.

UOL - Qual o risco de a crise voltar à intensidade a que ela chegou no final do ano passado?

Delfim Netto - Não creio que haja essa possibilidade. Os economistas, como não conseguiram explicar nada, inventaram a teoria alfabética da crise. A crise pode ser do tipo A: ela vai e volta e faz um traço no meio. Pode ser do tipo B: faz duas bolinhas e se une. Pode ser do tipo L: cai e fica onde está. Pode ser do tipo U: cai, fica onde está e volta. E a última novidade, como nós reintroduzimos o W no alfabeto brasileiro, é a crise de tipo W: ela foi, vai e volta. Tudo isso é puro chute.

Eu não vejo nenhuma possibilidade de (a crise) voltar. Todas essas previsões são, na verdade, chutes. E é muito natural. O sujeito acertou uma previsão, depois ele tenta acertar outra, e assim por diante. Está na hora de os que acertaram, e acertaram por acaso, errarem com certeza.

UOL - Mas de certa forma também não é uma previsão dizer que existe pouquíssima possibilidade de a crise voltar?

Delfim Netto - Claro que é uma previsão. (Mas) Eu estou usando o princípio da ignorância natural: se eu não sei nada do que pode acontecer, eu acho que vai continuar tudo igual.

fonte: economia.uol.com.br

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