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28/01/2010

Em discurso marcado pela economia, Obama pede unidade ao Congresso



O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, utilizou o seu primeiro discurso de Estado da União principalmente para falar sobre a situação econômica do país, que ainda patina após passar pela sua pior crise financeira desde 1929, elegendo a geração de empregos como prioridade.

Além de anunciar medidas de contenção de gastos e incentivos para a criação de empregos, ele ainda pediu ao Congresso para "trabalhar suas diferenças". O "timing" do pedido é perfeito: na semana passada ele perdeu a maioria que detinha no Senado ao ver os republicanos ganharem a cadeira do Estado de Massachussetts, caprichosamente terra do mais famoso clã político democrata, os Kennedy. O resultado é uma maior dificuldade para fazer andar projetos importantes, como a reforma do setor de saúde, que ele não deixou de citar.


"Enfrentamos grandes e difíceis desafios. E o que o povo americano acredita, o que eles merecem, é que todos nós, democratas e republicanos, trabalhemos as nossas diferenças para superar o peso nebuloso de nossa política", disse Obama em seu discurso em frente aos congressistas, mantendo a tradição do Estado da União, que já dura mais de 220 anos. "A princípio, as pessoas que nos enviaram aqui têm diferentes origens e diferentes histórias e diferentes crenças, mas as angústias que enfrentam são as mesmas. As aspirações que elas possuem são semelhantes."

O desemprego, que bate na casa dos 10%, foi o principal alvo do discurso. Ele elegeu a criação de novas vagas como a "prioridade número um" de seu governo em 2010. "O emprego deve ser nosso objetivo número um em 2010 e por isso peço este ano um projeto de lei para a criação de novos trabalhos", disse o presidente. "Eu quero um projeto de lei de geração de empregos na minha mesa, sem demora."

Entre as medidas que sugeriu para ajudar na criação de empregos estão o uso de US$ 30 bilhões do que foi devolvido das ajudas aos bancos no auge da crise para emprestar a bancos comunitários --com maior capilaridade entre pequenas empresas--, incentivos fiscais para as empresas que realizarem contratações ou elevem os salários e reduções fiscais para quem realizar investimentos.

Outra frente de trabalho que Obama citou foi a de energias limpas. Ele pediu aos congressistas "que deixem as diferenças de lado" para aprovar incentivos para o uso de energia limpa ou para a economia de energia. "A nação que liderar o uso de energias limpas estará à frente da economia global, e os Estados Unidos têm que ser esta nação", disse.

A exportação também ganhou destaque entre as iniciativas para a geração de empregos. O presidente anunciou que fará um programa nacional de exportação voltado para pequenas empresas e agricultores, com o objetivo de dobrar as exportações em cinco anos e gerar dois milhões de empregos nos EUA. "Nós temos que ser mais agressivos em novos mercados, justamente como nossos concorrentes fazem", disse Obama, lembrando ainda que pretende avançar na Rodada Doha de liberalização do comércio mundial e aumentar as relações comerciais com a Ásia e com parceiros-chave, como Coreia do Sul, Panamá e Colômbia.

Se voltando para onde mais perdeu apoio ao longo do primeiro ano de mandato, na classe média, Obama enfatizou a questão do emprego e o corte de impostos que promoveu.

"Nós cortamos impostos para 95% das famílias trabalhadoras. Cortamos os impostos para as pequenas empresas. Cortamos os impostos para quem comprou sua primeira casa. Cortamos os impostos para os pais que tentam cuidar de seus filhos. Cortamos os impostos para 8 milhões de americanos para pagar a faculdade. Como resultado, milhões de americanos tiveram mais dinheiro para gastar com combustível, alimentos e outras necessidades, tudo isso ajudando as empresas a manter mais trabalhadores. E não aumentamos impostos sobre a renda em um único centavo para nenhuma pessoa", disse.

Deficit

Obama deu um importante destaque no discurso não apenas para a questão do desemprego, como também para o deficit fiscal recorde. No ano fiscal 2008-2009, encerrado em setembro, o governo americano acumulou US$ 1,4 trilhão, e as previsões do Congresso é que no atual ano deve ficar no vermelho em mais US$ 1,35 trilhão.

"Vamos investir no nosso povo, sem deixar-lhes uma montanha de dívidas. Vamos cumprir a nossa responsabilidade para com as pessoas que nos enviaram aqui. Para isso, temos de reconhecer que estamos perante mais do que um deficit de dólares agora. Enfrentamos um deficit de confiança, profundas e corrosivas dúvidas sobre a forma como Washington funciona, que vêm crescendo há anos", disse.

Entre as medidas anunciadas pelo presidente foi o congelamento de parte do orçamento por três anos a partir de 2011. "Gastos relacionados à nossa segurança nacional, seguro-saúde, seguro-farmácia e previdência não serão afetados. Mas todas os outros programas discricionários do governo serão. Como qualquer família endividada, iremos trabalhar dentro de um orçamento para investir no que precisamos e sacrificar o que nós não precisamos. E se eu tiver que fazer cumprir a disciplina com veto, eu farei", disse.

Ele também pediu que os congressistas sejam mais rigorosos com seus próprios gastos, colocando-os como informação pública "para que o povo americano possa ver como seu dinheiro está sendo gasto." Neste sentido, Obama ainda atacou o trabalho dos lobistas em Washington e criticou a Suprema Corte por ter liberado totalmente o financiamento privado de campanhas políticas, o que complicaria a situação.

"É hora de exigir que os lobistas divulguem cada contato que eles fazem em nome de um cliente com o meu governo ou com o Congresso. E é hora de colocar limites rigorosos sobre as contribuições que os lobistas dão aos candidatos a cargos federais", disparou. "Na semana passada, a Suprema Corte reverteu uma lei secular para abrir as comportas para interesses especiais, incluindo de empresas estrangeiras, para gastar sem limites nas nossas eleições. Bem, eu não acho que as eleições americanas devem ser financiadas por interesses poderosos e, pior, por entidades estrangeiras. Elas [as eleições] devem ser decididas pelo povo americano, e é por isso que estou pedindo para democratas e republicanos para aprovar um projeto de lei que ajude a corrigir essa injustiça."

Apesar de ser uma importante fonte de gastos para o governo --aproximadamente US$ 1 trilhão em dez anos--, Obama ressaltou que não desistirá do seu plano de reforma da saúde, que entrou em risco após o governo americano perder a maioria do Senado.

"Até o fim do meu discurso desta noite, mais norte-americanos terão perdido seus seguros de saúde. Milhões perderam neste ano", disse. "Eu não vou abandonar esses americanos. E as pessoas deste Congresso também não devem abandoná-los."

Guerra ao terror

Assunto que normalmente ocupa amplo espaço nos discursos de Estado da União, a guerra contra o terror teve desta vez um destaque menor, ocupando a parte final.

Sobre o Iraque, Obama afirmou que "a guerra está próxima do seu fim" e que os soldados voltarão para os Estados Unidos. Ele lembrou que começará em agosto a saída dos soldados, em uma operação de retirada que deve se encerrar em 2011. Já o Afeganistão permanecerá com tropas, que só devem iniciar o retorno em julho de 2011. "Haverá dias difíceis pela frente, mas tenho confiança de que teremos êxito", disse.

A segurança do país também foi citada pelo presidente, que relembrou a tentativa de ataque a um avião comercial que fazia a rota entre Amsterdã e Detroit na noite de Natal. "Reparamos falhas inaceitáveis reveladas por essa tentativa de ataque, com uma melhor segurança aérea e ações mais rápidas de nossos serviços de inteligência."

Obama apenas mencionou o Haiti, lembrando que "cerca de 10 mil americanos colaboram com muitos países para ajudar as pessoas do Haiti a se recuperar e reconstruir o país". Embora o discurso não tenha dado grande destaque ao país caribenho devastado por um terremoto há duas semanas, o embaixador haitiano em Washington, Raymond Joseph, foi convidado a participar do ato ao lado da primeira-dama, Michelle Obama.

Ao falar de segurança, Obama aproveitou para lembrar que trabalhará para derrubar ainda neste ano a determinação do Exército americano que obriga os militares a esconder sua orientação sexual --uma das mudanças que prometeu durante sua candidatura. "Este ano trabalharei com o Congresso e com nossos militares para finalmente alterar a lei que nega aos homossexuais americanos o direito de servir à pátria que amam do jeito que eles são", disse o presidente.

Fonte: folha.com.br

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